Carimbó: Projeto transforma ritmo em recurso de aprendizagem e preservação ambiental

O carimbó é um dos ritmos musicais mais tradicionais da Amazônia e Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Bem diferente de como era conhecido no século 19, quando chegou a ser criminalizado pelo governo e chamado por determinadas classes sociais de “bárbaro” e “selvagem”. Desde 2022 é justamente o carimbó um dos principais instrumentos de aprendizado usados por alunos e professores no projeto “Conhecendo e reconhecendo a Amazônia: o uso da música paraense como valorização da diversidade regional”, projeto coordenado pelo professor Luiz Augusto Mendes, do curso de Pedagogia da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), campus Belém.
Com diferentes estilos, o carimbó expressa características do modo de vida das populações tradicionais ribeirinhas e rurais dentro das músicas. A proposta do projeto é analisar como as manifestações musicais locais podem ser incorporadas à prática educativa de escolas no Pará, para desconstruir visões fragmentadas sobre a Amazônia. O objetivo do projeto é promover o processo de ensino-aprendizagem sobre identidade, meio ambiente e preservação por meio do uso de músicas paraenses. Tudo isso para além dos livros didáticos e dentro das salas de aula.
As pesquisas foram inseridas no cotidiano de alunos do quarto e quinto ano do ensino fundamental, a partir da disciplina de educação ambiental na Escola Estadual Santo Afonso (EEEF Santo Afonso), no bairro do Telégrafo, em Belém.
“Era um momento pré-COP em que o Governo do Estado havia inserido a educação ambiental como uma disciplina regular no currículo da educação básica do Pará. Nós utilizamos algumas músicas de carimbó e com isso se ensinava o Português, um pouco de Geografia e também a História,a partir do legado do carimbó", explica o professor Luiz Augusto Mendes.
A partir de atividades interativas, como a produção de artes com materiais recicláveis e jogos de tabuleiro, os alunos foram estimulados a pensarem sobre os temas abordados. Uma das atividades trabalhadas com as turmas, consistia em uma “caça ao tesouro” no qual os alunos jogam em grupos usando um tabuleiro com dados e peões e avançam as casas ao cumprir desafios como responder a perguntas sobre desmatamento e fauna, sugerir ações de proteção aos rios e completar letras das músicas de carimbó para alcançar o "tesouro". Assim, a iniciativa foca na criação de ferramentas voltadas ao processo de ensino-aprendizagem que evidenciem a diversidade regional e o fortalecimento de identidades locais.
Mas como o carimbó pode ser incorporado dentro de sala? Integrante do projeto, a aluna Erika Pereira pensou em uma metodologia que pudesse utilizar as músicas para fazer análises críticas e criar recursos para o ensino-aprendizagem do tema da educação ambiental. A pesquisa virou o trabalho de conclusão de curso de Erika, que também analisou várias canções, como “Preservando o meio ambiente”, de Ray do Carimbó, para falar sobre a manutenção da natureza; a canção “Caçador”, do cantor Pinduca; bem como o Carimbó “Queimadas”, do mestre Lourival Igarapé e “Banzeira – rainha do lago verde”, do Grupo Tucuxí. As músicas foram utilizadas para debater a temática dentro da escola, por meio de recursos educacionais para o ensino dos alunos. Para a discente, a possibilidade de trabalhar essas metodologias foi essencial para a formação dos alunos ao tornar as disciplinas mais interessantes e trazer a realidade do estudante.
“A importância da produção de diferentes recursos didáticos é fazer com que a sala de aula seja cada vez mais atrativa, fugindo do tradicionalismo e fazendo com que os alunos se enxerguem na prática educativa. Trazer o conhecimento para a realidade desses alunos e estimular a participação deles, é uma forma de facilitar a compreensão dos conteúdos”, conta a estudante, que já apresentou o trabalho e agora é egressa do curso.
Segundo o Coordenador do projeto, com a incorporação desses recursos didáticos, a escola se transforma, permitindo os alunos a desenvolverem pensamento crítico e conservar a cultura amazônica, fundamental para conectar os jovens a suas raízes e realidades. Ele explica que a utilização da música dentro da sala de aula é importante porque traz as vivências, a linguagem e o cotidiano do aluno, que, muitas vezes, está fora dos muros da escola.
Ele explica que isso também se torna uma forma de resistência, pois ao levar música às escolas, é possível romper com o modelo tradicional e permitir que esse ambiente se torne um espaço de trocas onde alunos e professores aprendam e ensinem uns aos outros.
“Nós temos hoje um movimento de descredibilização da educação. A escola muitas vezes parece que é um lugar punitivo na visão dos alunos. E por quê? Porque, muitas das vezes, esse aluno estuda um conteúdo e tem um currículo que não fala com a realidade dele. Isso nos dá uma percepção de que para ele a escola é um lugar de repulsa e sabemos que a escola não é e não pode ser esse lugar. Ela tem que ser, além do lugar de formação científica, filosófica, cultural, linguística, de letramento geográfico, cartográfico, letramento histórico de temporalidades, mas também de vivências do cotidiano”, afirma.
Sobre o carimbó
O carimbó é um gênero musical típico da região Norte. A palavra, originada a partir do tupi “curimbó”, faz referência ao instrumento utilizado na composição dos batuques das canções. O ritmo incorporou elementos indígenas, africanos e ibéricos, tornando-se uma manifestação multicultural única. Isso porque, da melodia à dança, o ritmo amazônico representa a relação dos povos tradicionais com a natureza e a ancestralidade.
Apesar da riqueza artística, a manifestação cultural por anos foi criminalizada pelas elites e pelo governo. De acordo com o antigo Código de Posturas de Belém (Lei n. 1.028, de 5 de maio de 1880), era proibida a manifestação do ritmo “sob pena de 30.000 réis”. Além do impedimento legal, a imprensa local e intelectuais da época referiam-se ao carimbó como "balbúrdia", associando a festa popular à desordem e tentando apagar a presença das culturas ribeirinhas na capital.
Após décadas de resistência, em 2014 o carimbó foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Em Belém, o Dia Municipal do Carimbó é celebrado em 26 de agosto, data escolhida para homenagear o aniversário de Mestre Verequete, um dos mais conhecidos cantores e compositores paraenses de carimbó. A data busca não apenas relembrar ícones que marcaram a trajetória desse gênero musical, mas também incentivar a valorização da cultura popular no estado.
Texto: Larissa Costa, estagiária de jornalismo. Com supervisão de Vanessa Monteiro, jornalista, Ascom Ufra
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