Aldeia Tembé, no Pará, recebe sistema ecológico de água e saneamento implantado pela Ufra e MMA
Cerca de 40 indígenas Tembé da aldeia Herekohaw, localizada no município de Santa Luzia, no Pará, agora tem acesso a água potável e saneamento de forma ecológica e independente do sistema de abastecimento público. A instalação de três sistemas de captação de água da chuva e quatro tanques de evapotranspiração (Tevap), conhecidos como fossas ecológicas, fazem parte do projeto “Saneamento ecológico em aldeia indígena Herekohaw”, uma iniciativa da Universidade Federal Rural da Amazônia com recursos do Ministério do Meio Ambiente e do Clima (MMA).

Projeto é alternativa para garantia de água potável diante da crise climática na Amazônia, servindo de vitrine na Cop 30. Foto: arquivo Vania Neu
A universidade trabalha com tecnologias sociais de abastecimento de água e saneamento em comunidades ribeirinhas desde 2012, um conhecimento consolidado que chamou a atenção do MMA, que destinou os recursos para a instalação dos sistemas e vai apresentar o projeto como vitrine durante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP 30), em Belém. Um protótipo do projeto já está exposto na “Casa do Saneamento”, espaço da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) destinado ao diálogo e cooperação para enfrentar os desafios do saneamento, da saúde e da crise climática. O local, instalado na sede da Funasa, em Belém, vai funcionar durante todo o período da Cop 30 em Belém (PA).
Segundo a professora Vania Neu, coordenadora do projeto, várias comunidades indígenas não têm acesso a água potável na Amazônia, o que resulta em uma série de doenças de veiculação hídrica. Na aldeia Herekohaw, os moradores tinham dificuldades tanto no período de chuvas quanto durante a cheia dos rios. “Quando chovia as fossas transbordavam, e quando o rio secava faltava água”, disse.
Mudanças climáticas
A preocupação se intensificou com as mudanças climáticas, já sentidas na região. “Eles captavam água de um pequeno rio para garantir o consumo, durante o período de menos chuvas. Ao longo dos últimos anos, as secas extremas têm intensificado a insegurança hídrica na aldeia, e os indígenas tem receio de ficar sem água para beber”, disse Vania Neu.

Local onde parte da aldeia recolhia água. Foto: Vania Neu
A captação de água da chuva é um dos enfrentamentos possíveis diante do cenário de mudanças climáticas, explica a professora. “Ao longo do tempo tivemos uma mudança de cenário, com eventos de seca extrema na Amazônia, deixando muitas comunidades sem água, isoladas. O rio seca, os poços estão secando. Por isso agora nós estamos trabalhando sistemas de armazenamento cada vez maiores, já pensando reservar água da chuva para os períodos de seca”. Ela diz que antes as caixas d´água utilizadas no projeto eram de mil litros, agora são de 3 a 5 mil litros de água por família. “É já pensando em reservar água portável para períodos que não chove. No período chuvoso ou mesmo durante o período seco temos eventos de chuva. Quando bem cuidada e bem manejada, pelo menos temos garantida água para beber e cozinhar”, diz
A professora diz que durante o período de chuva a água captada sobra e pode ser usada para outros fins, como lavar a roupa e limpar a casa. Mas durante o período de seca ela tem que ser reservada somente para consumo, ou seja, comer e beber. “É muito triste na Amazônia pensar em racionar água, mas é o cenário que a gente vive”, lamenta.
Água da chuva
Os sistemas de captação de água da chuva funcionam sem a necessidade de energia elétrica, contando somente com a força da gravidade. Na aldeia, três cisternas instaladas têm capacidade de armazenamento total de 10.500 mil litros de água. Vania Neu explica que o volume de água atenderá toda a aldeia com água potável. “Durante o período chuvoso, a água pode ser utilizada para todas as demandas domésticas. Já em períodos de pouca chuva, a comunidade deverá priorizar a água da chuva para consumo humano”, diz.

Sistema implantado na aldeia Herekohaw. Foto: Vania Neu
Diferente de outros sistemas de captação já instalados pela universidade, na aldeia Herekohaw o sistema foi aperfeiçoado e passa a contar com “cloradores”, o que facilita o tratamento da água. Antes era necessário que o morador adicionasse uma dose de hipoclorito, para garantir a desinfecção da água, agora não é mais necessário. “Nesse sistema, reservatórios com capacidade de 3.000 litros armazenam a água já clorada, que posteriormente passará por filtragem com filtro de carvão ativado, processo importante que retira o excedente de cloro, deixando a água sem sabor e livre de patógenos”, explica.
Fossas ecológicas
A aldeia também recebeu quatro Tevap, fossas ecológicas conhecidas também como bacia de evapotranspiração (BET) ou fossa de bananeira. Elas funcionam como uma alternativa de tratamento do esgoto de forma sustentável, já utilizada por pesquisadores ao redor do mundo. Na Amazônia, elas podem ser adaptadas tanto para áreas alagadas quanto de terra firme, com tanques suspensos ou enterrados. Nesse sistema, quem faz o trabalho de tratamento dos dejetos são as diferentes camadas de materiais e as plantas que são organizadas no interior da bacia ou tanque. “Dentro do sistema, ocorre a fermentação, ou seja, o processo de degradação da matéria orgânica. Parecendo uma grande floreira, a camada superficial da fossa, recebe terra preta e plantas com grandes folhas, como bananeiras, tajãs, helicônias e mamoeiros. Por meio das folhas, as plantas devolvem água limpa para a atmosfera, sem contaminar o solo e os lençol freático”, explica Vania Neu.
O banheiro parece um banheiro comum. Mas a fossa é um jardim.

Na Amazônia, fossas ecológicas podem ser adaptadas tanto para áreas alagadas quanto de terra firme, com tanques suspensos ou enterrados. Foto: Vania Neu
Escola
A Escola Estadual Indígena de Ensino Fundamental e Médio Itapuyr, que atende crianças e adolescentes de outras quatro aldeias Tembé no município de Santa Luzia, também recebeu um sistema de captação de água da chuva. O sistema implantado tem capacidade de armazenamento 8.500 litros e passa a atender aos 51 alunos e 26 funcionários da escola, além de servir de modelo para que mais indígenas conheçam e repliquem a tecnologia.
“A incorporação do saber indígena ao longo do processo construtivo é fundamental para garantir o funcionamento, o cuidado e o sentimento de pertencimento das tecnologias. O saneamento ecológico, pode ajudar a reverter um histórico de marginalização das comunidades indígenas, no campo científico e tecnológico”, diz.
Tecnologias sociais e mudanças climáticas
Segundo a coordenadora, as tecnologias sociais desenvolvidas são simples, de baixo custo e podem ser facilmente mantidas e operadas pela própria comunidade. “Em muitas regiões do Brasil a construção de infraestruturas de saneamento convencionais são ineficientes, impraticáveis e inviáveis, por não respeitarem as especificidades locais e culturais”, diz.
Ela explica que que não existe apenas uma tecnologia capaz de fornecer água potável. Para universalizar o acesso à água potável, precisamos entender as diversas realidades e graus de isolamento de comunidades na Amazônia. “Muitas pessoas acreditam que água boa, é apenas a que vem de poços, o que não é verdade. Perfurar poços é uma tecnologia eficiente para muitos lugares, mas não para todas as regiões. Tem lugares que a água é salobra, outras tem elevados teores de ferro, além do elevado custo de implantação e manutenção”. Ela explica que para comunidades isoladas, a implantação de poços artesianos requer uma logística extremamente difícil e onerosa. “Devido as especificidades Amazônicas, inúmeras comunidades ainda não tem acesso a água potável, realidade que poderia ser transformada com sistemas de abastecimento de água de chuva”, finaliza.
Texto: Vanessa Monteiro, jornalista, Ascom Ufra
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