Projeto usa inteligência artificial para identificar características do espectro autista em crianças

Crianças com dificuldade de desenvolvimento e que não conseguem ter o diagnóstico ainda na primeira infância seguem sem laudo e sem acesso a políticas específicas de atendimento. Pensando nisso, pesquisadores da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra) estão trabalhando na construção de um sistema, que a partir do uso de inteligência artificial possa ajudar a identificar crianças com déficits de desenvolvimento, formando um banco de dados para subsidiar políticas públicas específicas. O projeto Sistema Inteligente para Promoção do Desenvolvimento Infantil na Amazônia Paraense (SDIA), tem o apoio do governo do estado do Pará e ainda está em fase piloto. O objetivo é que o software auxilie a fazer um rastreamento de crianças de 0 a 05 anos, ainda na primeira infância. O sistema vai auxiliar na identificação de características específicas dessas crianças, para que sejam direcionadas à uma rede de apoio especializada, garantida por lei e oferecida pelos órgãos públicos. O detalhe é que todo o sistema conta com ajuda de inteligência artificial.
Após alguns meses de estudos e testes, o projeto já tem o modelo de inteligência artificial definido. “Foram escolhidas duas abordagens de inteligência artificial para modelar o problema, ambas com capacidade de modelar o conhecimento dos especialistas e interpretar as situações estudadas. Estamos testando o protótipo com dados artificiais, gerados por inteligência artificial, para que depois possam ser validados com os dados reais das crianças”, explica o professor Marcus Braga, coordenador do projeto SDIA.
Na prática o aplicativo vai auxiliar em entrevistas com pais e professores, sugerindo perguntas e respostas já preconizadas pelo Ministério da Saúde e por profissionais especializados na área, dando uma prévia se aquela criança apresenta características específicas, como por exemplo, do autismo. “A partir daí a equipe vai indicar para uma rede de atendimentos e diagnósticos especializados disponíveis no estado, como o serviço de saúde", explica o professor. Assim que estiver disponibilizado o protótipo, o SDIA irá coletar dados em uma creche de Belém, com 50 profissionais da educação infantil. O projeto prevê a capacitação tanto de professores quanto de pais para utilização do protótipo, além da transferência da tecnologia. Segundo o pesquisador, a meta que é que o programa possa se expandir para escolas e unidades de saúde.
De acordo com a professora Flávia Marçal, coordenadora do Projeto TEA Ufra e integrante do SDIA, a primeira infância é um período crucial no desenvolvimento humano, onde dificuldades e atenção especial frequentemente se manifestam. "A identificação precoce de deficiências, como autismo e síndrome de Down, é fundamental para proporcionar intervenções adequadas e oportunas, maximizando o potencial de cada criança. O suporte educacional na primeira infância, incluindo alfabetização e habilidades essenciais, estabelece uma base sólida para o desenvolvimento futuro das crianças, preparando-as para o sucesso acadêmico e pessoal. É vital direcionar atenção e recursos para essa fase da vida, garantir que todas as crianças tenham igualdade de acesso aos direitos é um princípio fundamental e o projeto busca promover essa igualdade, reconhecendo as diferenças individuais", explica a professora.
Flávia Marçal diz que é muito importante que, caso ocorra suspeita de autismo, esse processo se dê com pediatra e uma equipe multidisciplinar que acompanhe os marcos do desenvolvimento infantil. "Estimulação precoce, intervenção precoce e diagnóstico precoce são direitos e são essenciais para que possamos ter uma melhoria do quadro, especialmente naquilo que prejudica a autonomia da pessoa com autismo. Sempre importante lembrar que pessoas com autismo tem necessidades, potencialidade e habilidades. Comprender esses três pontos na melhor forma de incluir a pessoa com autismo é sempre o melhor caminho a ser trilhado", diz a professora.
Junto ao professor Marcus Braga e à professora Flávia Marçal atua também uma equipe multidisciplinar composta pelos professores Fabrício Araújo ; Liliane Afonso ; Gilberto Nerino; Isadora Mendes; Aline Cruz (UFPA - Hospital Barros Barreto); Daniel Leal (CESUPA) e o Núcleo de Pesquisas em Computação Aplicada (NPCA), da Ufra campus Paragominas.
Texto: Vanessa Monteiro, jornalista, Ascom Ufra (matéria publicada originalmente em 02/12/2023 e atualizada em 02/04/2024
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