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Animais precisam se readaptar à volta das atividades presenciais dos tutores

  • Publicado: Quinta, 17 de Setembro de 2020, 14h35
  • Última atualização em Quinta, 17 de Setembro de 2020, 16h40

rotina

A pandemia e a necessidade de “ficar em casa” como forma de prevenção ao Covid-19, acabou por mudar alguns hábitos de quem pôde permanecer no lar. E um desses hábitos diz respeito à convivência com importantes membros familiares: os cães e gatos. A presença diária em casa fez com que os animais se acostumassem a passar mais tempo com os tutores, o que agora pode gerar problemas.

“Esses animais se habituaram com isso, e esqueceram como é ficarem sozinhos. Para alguns animais isso é muito difícil, especialmente para cães, porque são animais que vivem em grupo, que gostam de estar em grupo e que precisam disso, assim como os humanos. Para os cães, a matilha deles hoje é a família”, diz a médica veterinária Fernanda Martins, professora da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA).

Uma das preocupações dos veterinários agora é readaptação dos animais à ausência temporária da família, que está retomando as atividades fora de casa. “Eles podem sofrer do que chamamos de ‘ansiedade de separação’, o que os leva a vários efeitos comportamentais e fisiológicos, como o aumento de batimento cardíaco, alguns ficam ofegantes, tem sudorese e salivação excessiva. Alguns desenvolvem comportamentos chamados estereotipias, como o de ‘ficar se lambendo’ até se ferir, coçando excessivamente algumas áreas do corpo. Isso é tudo uma questão de ansiedade, não é animal mal educado, não é frescura, é realmente uma patologia psicológica, um animal que precisa de contato e que está privado disso”, explica.

As alterações também podem incluir mudanças comportamentais, com atitudes que o animal não tinha antes. “Podem começar a destruir algumas coisas no ambiente, como a cama e o sofá, que de alguma forma são locais que estão associados a presença de pessoas, e que remetem a eles essas pessoas. Por isso acabam ficando muito ansiosos e tentam ‘encontrar algo’ que ‘traga’ a presença das pessoas e conforto para eles”, diz.

Para que essa nova realidade não seja desgastante ou cause danos ao animal a professora dá algumas dicas, como a readaptação contínua, que começa com a ausência do tutor por curtos espaços de tempo. “É preciso começar imediatamente, iniciando em curtos períodos. Se você mora em prédio, pode começar saindo rápido, desce e volta do prédio, por um período curto, de três minutos, que aí o animal vê que você saiu e voltou. Faça isso de vez em quando, aí você já vai aumentando o tempo, vá a um lugar mais distante, à padaria, demore mais tempo, cerca de vinte minutos. Com isso, aos poucos, você vai desensibilizando o animal, ele pára de achar que você vai desaparecer e abandoná-lo. O importante é ir aumentando essas saídas gradativamente, com paciência e repetição”, ensina.

A outra dica pode ser a mais difícil para quem tem animais. “Precisamos começar a adaptar esses animais para a nossa saída. Por mais que seu coração doa, não faça ‘festa’ na hora que você chega em casa. Ele faz aquele escarcéu de pular, e o ideal é que você chegue em casa e tente não dar atenção, não olhar, não falar com ele. É preciso deixar ele se acalmar, depois disso você se aproxima e fica com ele, faz sua festa, mas só quando ele já estiver calmo. A mesma coisa deve ser feita quando você for sair, você simplesmente sai. Não saia escondido e também não fique falando demais, se despedindo, explicando que vai voltar, porque isso vai deixar ele cada vez mais ansioso. Não fique se demorando, pegando bolsa, chave, passando pela casa, porque ele já sabe que você está se preparando pra sair. Ele vê sua roupa, o ritual de saída, e começa a ficar ansioso. Então sai de uma vez, sem ser escondido”.

Embora essa dica possa causar estranheza em alguns tutores, a médica veterinária explica a necessidade de manter as atitudes pelo tempo que for necessário. “O tutor precisa entender que isso não vai abalar o vínculo. O animal não vai gostar menos dele porque o tutor não está correspondendo à festa da chegada. Mas isso pode criar um grande problema para o animal, pois traz uma energia muito alta para esse momento, então o animal fica muito ansioso esperando por isso. A chegada e saída não podem ser eventos tão importantes assim”, explica.

Outra dica é realizar atividades que façam o animal gastar energia, como as caminhadas. “O cachorro precisa caminhar pelo menos duas vezes ao dia, uma caminhada de trinta minutos vai deixar ele mais cansado, menos estressado e satisfeito. Jogar bola com ele, envolvendo bastante correria. O tutor tem que ver o que o seu animal gosta, isso sim, vai fortalecer o vínculo. O momento da entrada não é a hora de você colocar um alto nível de  excitação, essa energia pode ser gasta em outras atividades”.

E se o ideal é não fazer “festinha” ao chegar, o mesmo vale para quem briga com o animal. “Em hipótese alguma brigar com ele quando você chegar. Se você chegar e começar a brigar porque ele fez alguma bagunça, isso vai deixar ele ainda mais nervoso, porque ele vai perceber você chegando agitado e brigando, e ele não sabe o motivo, porque ele não lembra. Ele não vai associar a briga com algo que ele fez, porque pra ele é passado e não consegue relacionar os dois eventos. Para ele não tem nenhuma relação a sua briga com algo que ele fez”, diz.

Segundo a médica veterinária, os gatos costumam ter menos problemas com a ansiedade da separação, pois não são animais de grupo, mas isso não significa que não sintam a separação.  “Eles podem ficar ansiosos e se sentirem isolados. Você vai conseguir neutralizar isso dando atividades para eles ‘trabalharem’ enquanto você não estiver em casa”, diz. Nesse caso o recomendado seria investir no enriquecimento ambiental, ou seja, deixar o ambiente atrativo para que ele se distraia até que você volte. Isso vai ajudar a controlar os maiores impactos que estar em uma família humana causa ao bem-estar dos gatos: ócio e obesidade. 

“O enriquecimento ambiental pode ser físico, cognitivo e social. O físico inclui estruturas para eles escalarem, como prateleiras, e para se isolarem (tocas) se sentirem necessidade. Devem estar em número suficiente para a quantidade de gatos na casa. O enriquecimento cognitivo pode ser feito com atividades que estimulem a inteligência, como retirar a ração de dentro de um brinquedo, por exemplo. Existem brinquedos seguros que podem ser usados para a estimulação cognitiva. Os gatos gostam de comer em pequenas parcelas ao longo do dia e algumas pessoas acabam contribuindo para a obesidade do animal, engordando os gatos, dando alimento toda hora, porque eles pedem. Essa quantidade deve ser indicada por um veterinário, e pode ser disponibilizada não diretamente em um pratinho, mas dentro de um brinquedo que ele precise mexer para retirar, a ração pode ser colocada dentro de uma garrafinha com furos, pra ele tentar ficar tirando a ração de dentro. É bom deixar o ambiente mais rico pra ele ter o que fazer enquanto tiver em casa, com brinquedos de puxar, de perseguir (bolinhas de ping pong). Escolha brinquedos seguros para evitar acidentes como engolir partes do objeto. Os arranhadores são muito importantes para os gatos, porque contribuem para satisfazer a necessidade de marcação do território, evitando que eles destruam as coisas. Podem ser feitos com materiais simples, como papelão e sisal. O enriquecimento social é a sua presença (interespecífico), brincar e cuidar dele”.

Cães ou gatos, o mais importante, de acordo com a médica veterinária, é criar um ambiente com atividades, confortável e seguro, onde você está presente em alguns momentos, para que eles possam se desenvolver plenamente.

Texto: Vanessa Monteiro, jornalista, Ascom Ufra

Arte: Mariane Smith

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