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Especial Dia da Amazônia: Aumento das queimadas na região leva a impactos ambientais, climáticos e socioeconômicos

  • Publicado: Sábado, 05 de Setembro de 2020, 09h43
  • Última atualização em Sábado, 05 de Setembro de 2020, 09h57

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Mais do que celebrar a existência da floresta que possui a maior reserva de biodiversidade do mundo, o dia 05 de setembro é também uma data dedicada a mobilizar a população quanto aos problemas e desafios para garantir a preservação da Amazônia. Especialistas alertam para os níveis alarmantes de incêndios florestais na região, que registrou 29.308 focos de incêndio somente no último mês de agosto – o segundo pior mês de agosto dos últimos dez anos. Os dados foram divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Embora os meses entre agosto e outubro costumem apresentar maiores taxas de incêndios florestais na região, os pesquisadores destacam que a grande maioria das queimadas na Amazônia não ocorre de maneira natural. O professor Divino Vicente Silvério, da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), cita três principais aspectos que ajudam a explicar o atual cenário: “O primeiro e mais importante é que, se temos muitos focos de incêndios este ano, é porque existem muitas pessoas intencionalmente realizando queimadas. Segundo, nos dois últimos anos tivemos grande aumento na área de florestas nativas que foram desmatadas e que agora estão sendo queimadas para limpeza da biomassa seca das árvores destas áreas que, mais provavelmente, darão lugar a pastagens. Para se ter uma ideia, um relatório do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) estimou que até o início deste ano existiam quase 5 mil km² de florestas recém desmatadas que, certamente, serão queimadas ainda no ano de 2020”.

Ele cita, ainda, um terceiro aspecto agravante, que é fato de o período seco em 2020 estar mais intenso em grande parte da região amazônica, especialmente na parte sul. “Desse modo, as mudanças nas ações humanas, associadas à maior quantidade de material combustível e ao clima mais seco, resultou no grande número de queimadas que estamos vendo atualmente”, explica.

Segundo o professor, estudos publicados recentemente sugerem uma tendência de redução na quantidade de umidade na Amazônia durante a estação seca ao longo dos anos, fazendo com que as secas se tornem cada vez mais severas.  “Dois processos são importantes para explicar esta mudança: primeiro, o desmatamento acumulado das últimas décadas tem reduzido a quantidade de vapor de água que é normalmente produzido pelas florestas da região; segundo, as queimadas produzem grande quantidade de fumaça nas quais há partículas minúsculas, chamadas de aerossóis, que ficam em suspensão na atmosfera, e que dificultam a formação de nuvens e favorecem o prolongamento do período seco”.

Além de tudo isso, há, ainda, um outro fator importante: evolutivamente, as árvores amazônicas não são adaptadas para resistir ao fogo. “Este ecossistema riquíssimo em biodiversidade não evoluiu com a presença do fogo. Por isso, a grande maioria das espécies de plantas lenhosas da Amazônia não possui adaptações que permitam a elas resistir às altas temperaturas”, pontua. Como comparação, as espécies da Amazônia apresentam cascas mais finas em relação às árvores do Cerrado, que é um ecossistema mais adaptado ao fogo. “Quando ocorre uma queimada em uma floresta da Amazônia, mesmo que seja pouco intensa, há uma alta mortalidade de árvores, e isso faz com que as florestas se tornem bastante degradadas com o tempo. Além disso, em um dos nossos estudos, mostramos que eventos de queimadas acabam por provocar cicatrizes no tronco das árvores, o que serve como porta de entrada para microrganismos que danificam o tronco, tornando-as vulneráveis a novos eventos de fogo e tempestades de vento”.

Aos impactos negativos do desmatamento e das queimadas descontroladas somam-se os efeitos das mudanças climáticas, criando um ciclo que favorece cada vez mais a ocorrência de novos incêndios florestais. “Considerando que a Amazônia é um ecossistema chave para a estabilidade do clima global, o que acontece aqui tem implicações para o mundo todo. No entanto, é importante ter em mente que as mudanças climáticas e ambientais na Amazônia afetam primeiro a qualidade de vida das pessoas que vivem aqui, com inúmeros problemas econômicos, sociais e de saúde”, alerta.

Como exemplo, ele cita que o desmatamento acumulado na Amazônia já provocou um atraso de quase um mês no início da estação chuvosa no sul da região, principalmente em Rondônia e no norte do Mato Grosso. “Isso porque o desmatamento reduz a formação de vapor de água, um processo chave para o início das chuvas na região. Recentemente, nós publicamos um trabalho mostrando que, para o sul da Amazônia, a substituição de floresta por pastagem reduz a formação de vapor de água em mais de 30%. Além disso, mostramos que esta mesma transição no uso da terra provoca um aumento na temperatura da superfície de 4 °C. Assim, é importante controlar o desmatamento e as queimadas na Amazônia, com o objetivo de mitigar as mudanças climáticas globais e minimizar todos os outros problemas ambientais e sociais causados na nossa região”.

As consequências do descontrole nas queimadas vão desde perda da biodiversidade e aumento na emissão de gases do efeito estufa – o que se relaciona diretamente à elevação da temperatura do planeta - até prejuízos à saúde humana e à economia. “Os incêndios causam prejuízos diretos aos produtores rurais, queimando cercas, lavouras, maquinários e provocando acidentes nas rodovias. Além disso, é caro combater os incêndios. Todo ano, milhões de reais são gastos no combate a incêndios florestais. Por fim, a fumaça produzida pelas queimadas causa ou agrava várias doenças respiratórias”.

De acordo com o professor da Ufra, estudos estimam que cerca de 10 mil vidas são perdidas anualmente na América do Sul por doenças respiratórias relacionadas à fumaça liberada pelos incêndios florestais. “Se considerarmos que atualmente estamos vivendo a pandemia do novo coronavírus, que também afeta o sistema respiratório, a exposição prolongada de pessoas doentes a ambientes com altas concentrações de fumaça pode agravar os sintomas e aumentar o número de mortes provocadas pela combinação destes dois fatores”, alerta.

*Divino Vicente Silvério é docente do campus Capitão Poço da Ufra e colabora com projetos de pesquisa da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT) e do  Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM). Possui Licenciatura em Ciências Biológicas (UNEMAT), mestrado em Ecologia e Conservação (UNEMAT) e doutorado em Ecologia (UNB). Atua nas áreas de Geoprocessamento e análises espaciais, Interação biosfera atmosfera, Mudanças no uso da terra, Ecologia e funcionamento de florestas, Fenologia e reprodução de espécies arbóreas e Ecologia do fogo.

Texto: Jussara Kishi

Arte: Cristian Santos

Ascom Ufra

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