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Professoras falam sobre violência doméstica e o aumento desses casos no sudeste paraense

 

  • Publicado: Quarta, 12 de Agosto de 2020, 19h40
  • Última atualização em Quinta, 13 de Agosto de 2020, 09h57

lilas

De janeiro a julho deste ano, os casos de violência contra mulheres ocupam o 5º lugar no número das ligações ao Disque Denúncia do sudeste do Pará. O município de Parauapebas lidera essas denúncias, com um aumento de 51% no número de casos. A situação no município e a comemoração pelos 14 anos da Lei Maria da Penha foram os impulsionadores que levaram a prefeitura do município a promover o Agosto Lilás, uma programação que ocorre de forma online e que segue até o próximo dia 21.

A programação conta com lives de profissionais que debaterão a saúde física e mental da mulher; relacionamentos abusivos; estratégias de superação; empoderamento feminino e informações sobre a rede de atendimento aos casos de violência.

As professoras Daniela Castro dos Reis e Josilene Ferreira Mendes, docentes da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra) campus Parauapebas são algumas das palestrantes do evento e nesta quinta-feira (13), vão abordar o tema “Relacionamentos abusivos e violência doméstica: o conhecimento como estratégia de enfrentamento”. A live pode ser acompanhada a partir das 17h, diretamente pelo Facebook da prefeitura (https://www.facebook.com/prefeituradeparauapebas/).

Para Daniela Castro dos Reis, que é doutora em psicologia e comportamento humano, em tempos de crise e isolamento, as mulheres e meninas continuam sendo as mais afetadas, especialmente as trabalhadoras informais e as que realizam serviço doméstico.

“Em contexto de emergência, os riscos de violência contra mulheres e meninas aumentam, especialmente a violência doméstica, com o aumento de tensões em casa e o isolamento das mulheres. As mulheres ainda tem que enfrentar obstáculos adicionais para fugir dessas situações de violência, como acessar os serviços de proteção que salvam vidas ou os serviços essenciais, pois enfrentam restrições de locomoção já que estão em quarentena. Há também os aspectos econômicos da pandemia, o que pode criar obstáculos adicionais, como a dificuldade em deixar um parceiro violento, e um aumento no risco à exploração sexual com fins comerciais. A segurança alimentar de mulheres e meninas também pode ser afetada por dificuldades no acesso a alimentos nutritivos e seguros, devido ao fechamento de serviços de alimentação nas escolas e comunidades, escassez de alimentos e restrições de locomoção, principalmente para uma sociedade em situação de vulnerabilidade social”, explica.

De acordo com a assistente social Juliana Araújo, coordenadora de planejamento da Secretaria Municipal da Mulher de Parauapebas (SEMMU) os índices de violência aumentaram em mais de 50% no município desde o início da pandemia. E um trabalho contínuo de apoio e acolhimento dessa mulher tem se desenvolvido no município.

"Parauapebas possui uma rede completa de atendimento às mulheres vítimas de violência previstos na Lei Maria da Penha, todos os da Secretaria da Mulher estão disponíveis para atendimento 24h, como o atendimento psicossocial, através do Centro de Atendimento a Mulher, atendimento jurídico através do CEAJUM, e o serviço de abrigamento às mulheres e seus filhos menores em caso de risco de morte". De acordo com a coordenadora, esse tipo de parceria com as universidades auxilia no enfrentamento da violência e na fundamentação teórica para o desenvolvimento de políticas públicas pela Semmu.

SIS MULHER

Um dos resultados dessa parceria no município é “Sis Mulher”, um sistema de informação interno projetado para que os dados das mulheres que procurassem apoio municipal ficassem reunidos em um mesmo sistema. Com o Sis Mulher, todos os dados de consultas e atendimentos ficam armazenados no mesmo perfil da mulher cadastrada, disponibilizando o acesso ao sistema jurídico, social, de saúde e assistência àquela mulher.

A concepção do sistema partiu das professoras Daniela Castro dos Reis e Josilene Ferreira Mendes, com a parceria da Secretaria da Mulher e da Secretaria de Planejamento do município.  O objetivo é ajudar os técnicos nesse atendimento e não revitimizar as mulheres que busquem ajuda. O programa foi originado a partir do projeto “violência doméstica, um debate necessário”, organizado pelas docentes na universidade. “O objetivo é compreender quem é essa mulher, do que ela precisa, fazer essa análise e assim planejar e pensar em políticas públicas específicas que possam ser executadas pela prefeitura”, diz Daniela Castro dos Reis.

A iniciativa também incentivou a criação do projeto de pesquisa e extensão “Observatório de Gênero”, organizado pelas professoras, com o apoio de técnicos e alunos da universidade. As ações do observatório incluem rodas de conversa e oficinas com adolescentes da rede pública de ensino. “O objetivo não é apenas falar para a mulher, mas principalmente falar para o homem, porque ele é o principal agressor. Não temos como pensar em violência doméstica se não trabalharmos com o homem, e isso tem que acontecer desde a base, a partir da conscientização dos meninos, de não objetificar a mulher, de que não tem poder sobre elas”, diz a professora Daniela Castro dos Reis. As discussões incluem temas que fazem parte do dia a dia adolescente, e com informações que eles recebem de mídias como o facebook e o whatsapp. “Nossa intenção é fazê-los repensar essas atitudes. É um trabalho de formiguinha. Mas a longo prazo nós vamos conseguir”, diz.

Em março desde ano o Ministério Público do Pará (MPPA) divulgou dados referentes a 2019 sobre os atendimentos feitos no órgão. Entre as informações destacadas é que 50% das vítimas declararam não possuir nenhuma renda, 87% dos casos acontece entre agressores que têm vínculo de afetividade/conjugalidade com a vítima e 13% algum vínculo de parentesco.

A professora Daniela Reis afirma que a violência doméstica afeta todas as mulheres, pois “o fenômeno da violência é polissêmico, multifacetado e complexo em todas as sociedades, principalmente um sociedades patriarcalistas como no caso do Brasil”. E embora existam estudos que ajudem a identificar um perfil desse agressor, ainda não há consenso sobre o assunto. “Alguns indícios comportamentais ainda surgem no início dos relacionamentos afetivos, às vezes o autor de agressão começa a questionar um estilo de roupa que a mulher veste, um tipo de comportamento que ele não gosta, o controle de documentos pessoais, a chantagem emocional, impedimento à sua saída, controle de localização, entre outros. Uma das formas de orientação é tentar entender que tais comportamentos podem vir associados a uma declaração de amor ou justificativa de cuidado. Fica o alerta”.

Para denunciar:

- Em Parauapebas, a população pode ligar para o telefone fixo (94) 3312-3350 ou enviar mensagem para o Whatsapp 98198-3350.

- Em todos o município do Brasil: a vítima pode ligar para os telefones 180 ou 190

- Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam) do seu município.

- A Defensoria Pública do Estado lançou o Espaço Virtual de Acolhimento (EVA) para mulheres em situação de violência, oferecendo orientação jurídica e psicossocial no âmbito familiar. A mulher preenche um formulário que é encaminhado ao Núcleo de Prevenção e Enfrentamento à Violência de Gênero (Nugen). O Núcleo também disponibiliza os seguintes números: (91) 99172-6296. Para atendimento ao homem, o número é (91) 3217-2342 / 2342. (www.defensoria.pa.def.br)

- Pará Paz Mulher: agrega no mesmo espaço físico o TJPA, Ministério Público do Pará (MPPA) e Defensoria Pública do Pará. Pará Paz Mulher (Belém): Travessa Mauriti, 2393, bairro do Marco. Funciona das 8h às 14h. Pará Paz Mulher (Ananindeua): TV We 31, nº 1112. Cidade Nova. Funciona das 8h às 16h.  (www.propaz.pa.gov.br)

- Delegacia Virtual: www.delegaciavirtual.pa.gov.br

Texto: Vanessa Monteiro, jornalista, Ascom Ufra. Com informações da Secretaria Municipal da Mulher de Parauapebas (SEMMU) e site da Prefeitura Municipal de Parauapebas.  

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