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Cavalos vítimas de maus tratos ganham segunda chance com a adoção

  • Publicado: Quinta, 30 de Julho de 2020, 15h53
  • Última atualização em Quinta, 30 de Julho de 2020, 16h07

“Ele é muito especial, é gentil, carinhoso, só falta falar”. Quem escuta Rejane Monteiro falando sobre o Garrafinha, não imagina de imediato que se trata de um cavalo. Com um histórico de maus tratos e com esse nome por antigamente pertencer a um carroceiro dependente de alcoolismo, hoje Garrafinha não sente mais o peso das carroças e tem a oportunidade de viver ao lado da família de Rejane, em um sítio no município de São Caetano de Odivelas, nordeste paraense.

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Garrafinha atualmente vive solto no sítio de Rejane

“No início eu quis mudar esse nome, pela lembrança triste da vida dele, mas minha filha disse que era importante pela história de vida dele. Ele é um cavalo muito especial, eu converso com ele, digo pra ele que o tempo de carroceiro dele acabou, que agora ele é um lord. Ele tem uma casinha e já sabe a hora que vou por a comida. Toma banho com shampoo, come frutas, e gosta de ficar na sombra e dormir. Meu marido reclama que o Garrafinha tem mais privilégio que ele na casa. Algumas pessoas perguntam por que eu cuido de um cavalo, aí eu pergunto: e por que elas tem cachorro?”, diz Rejane Monteiro, que disse sempre ter o sonho de ter um cavalo.

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Garrafinha com a tutora Rejane

O Garrafinha é apenas um dos animais reabilitados e disponibilizados para adoção ao longo dos 17 anos de atividade do Projeto Carroceiro, da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra). No projeto são realizados gratuitamente atendimentos clínicos e a reabilitação de cavalos, burros e jumentos utilizados no trabalho de tração. Como o projeto não realiza o resgate ou apreensão desses animais, eles são encaminhados à Ufra tanto pelos próprios carroceiros, quanto por órgãos de fiscalização, como a Divisão Especializada em Meio Ambiente e Proteção Animal (DEMAPA), Centro de Controle de Zoonoses (CCZ-PA), Batalhão da Polícia Ambiental e Corpo de Bombeiros.

De acordo com o professor Djacy Ribeiro, coordenador do Projeto Carroceiro, só na região metropolitana de Belém estima-se que existam em torno de 1.500 animais utilizados em carroças, para o trabalho de tração. E quando apreendidos ou abandonados, costumam chegar em péssimas condições ao projeto. “Eles chegam subnutridos, magros, exaustos, com deficiências minerais, feridos, com escoriação da carroça. Alguns possuem fraturas, doenças ortopédicas e problemas de pele por falta de higiene regular, todos sofreram maus tratos”, diz.

Após um longo período de cuidados clínicos, reabilitação e de convivência com a equipe do projeto, o animal já pode ser disponibilizado para adoção responsável. Uma das regras é que ele nunca mais seja utilizado para qualquer trabalho de tração. “Em sua maioria eles são oriundos de maus tratos e possuem alguns problemas que os limitam ao trabalho, mas não de ter uma vida normal. Os que apresentam dificuldades físicas nós nos certificamos que o mesmo estará reabilitado e terá uma vida digna e de conforto com o novo tutor. Os animais chegam ao projeto oriundos de apreensão por situação de maus tratos ou acidentes nas vias públicas, não vamos permitir que voltem a essa situação”, afirma o coordenador.

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Dudu e Narizinho indo para o novo lar, após reabilitação no Projeto

Para adotar um dos animais do projeto é necessário seguir recomendações e cumprir com alguns requisitos, como explica o coordenador. “Primeiro o interessado pode vir ao projeto e conhecer os animais. Então é preciso que essa pessoa tenha posse de uma propriedade rural onde haja condições suficientes de área, pasto e infraestrutura para a manutenção sustentável de um ou mais equinos. Então é preciso ir à Delegacia de Meio Ambiente e Proteção Animal e preencher dados comprobatórios de tutor, que são os documentos pessoais e de posse da terra. Aí a Dema faz uma vistoria no local, autoriza a tutoria, o tutor escolhe o animal, assina a papelada e por último o leva para nova moradia”, diz. Segundo o professor, caso o local seja na região metropolitana de Belém, a Demapa pode auxiliar com esse transporte.

Durante o mês de julho, três animais foram adotados. Atualmente há apenas um animal no projeto esperando por uma nova oportunidade, a Corona. “A Corona é uma mula, que é o cruzamento do jumento com a égua. Ela é estéril, muito mansinha e carinhosa, e foi apreendida vagando no canteiro da avenida Marquês de Herval, abandonada e comendo lixo. Ela não tem problemas físicos ou psicológicos e aguarda uma nova família”, diz o coordenador.

Para ajudar na convivência com os equinos, o projeto disponibiliza uma cartilha, que auxilia os tutores na criação desses animais. A cartilha tem um conteúdo básico sobre alimentação e manejo, e caso os proprietários tenham dúvidas, sempre podem contar com a equipe do projeto para tirar dúvidas dos tutores, ou para visitas in loco caso haja necessidade.

Segundo o coordenador, a convivência com um equino só traz benefícios. “É um animal super alegre, dedicado, amigo e pode ser criado como um pet, no convívio diário, lógico que com um manejo e trato diferente de gatos e cães. Nos sítios, como os cavalos se alimentam de capins e gramas, os tutores ainda podem poupar gastos com máquinas na manutenção dessas áreas. Os animais também produzem bastante esterco, que pode ser utilizado como adubo nas plantações locais.  Tudo isso além de ganhar afago, carinho e de ser um gesto nobre de responsabilidade social, por se tratar de um animal oriundo de maus tratos e vítima da violência social”, afirma.

Mensalmente, o Projeto Carroceiro atende cerca de 20 animais no campus da Ufra em Belém e mantém em média oito animais internados. Além do trabalho no campus Belém, o projeto também realiza campanhas e atividades itinerantes, com ações de atendimento clínico em locais em que existem o trabalho de tração animal, como as ilhas de Cotijuba e também Maiandeua, no município de Marapanim. Desde que começou com as campanhas de adoção, o Projeto Carroceiro já conseguiu que 150 animais fossem reabilitados e ganhassem uma nova família, onde vivem bem longe do antigo trabalho de tração.

Texto: Vanessa Monteiro, jornalista, Ascom Ufra

Fotos: arquivo pessoal de Rejane Monteiro e do professor Djacy Ribeiro

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