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Introduzir espécie exótica em um ecossistema é perigo à biodiversidade, alertam pesquisadoras

  • Publicado: Quinta, 16 de Julho de 2020, 16h45
  • Última atualização em Segunda, 20 de Julho de 2020, 19h55

O episódio ocorrido no Distrito Federal, envolvendo o tráfico de uma serpente da espécie Naja, originária de regiões da África e da Ásia e uma das cobras cujo veneno é um dos mais letais do mundo, reacendeu o alerta que muitos biólogos, zoólogos e especialistas de meio ambiente já discutem há anos: a introdução de uma espécie não nativa em um ambiente é um dos maiores riscos à biodiversidade.

Segundo a professora Dra. Andréa Bezerra, zoóloga na Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), essa é uma atitude que pode trazer sérias consequências.“As espécies exóticas competem com as espécies nativas por recursos, como alimento, abrigo e podem introduzir ou transmitir novas doenças, as quais elas são resistentes e as nossas não, e não possuem um predador natural que ajude no seu controle biológico. Além disso, no caso de um animal peçonhento, por não ser da nossa fauna, não possuímos um soro antiofídico desenvolvido para aquela espécie, o que dificulta o tratamento num caso de acidente", alerta.

O Ministério da Saúde adquire toda a produção de antivenenos dos quatro produtores nacionais: Instituto Butantan, Instituto Vital Brazil, Fundação Ezequiel Dias e Centro de Produção e Pesquisa de Imunobiológicos. O soro antiofídico é produzido a partir de anticorpos produzidos por cavalos, com a utilização do plasma sanguíneo, como explica a professora Annelise Batista D'Angiolella, doutora em zoologia e professora na Ufra, campus Capitão Poço.

"Como não são anticorpos humanos, o soro também pode causar uma reação alérgica em algumas pessoas, e evoluir para o choque anafilático. Por isso o Ministério da Saúde não pode distribuir o soro livremente, já que o mesmo precisa ser aplicado em um local adequado, devidamente equipado e por pessoas qualificadas, para oferecer o devido tratamento ao paciente caso um choque anafilático venha a ocorrer”,  diz a professora Annelise Batista.

A pesquisadora, que desenvolve trabalhos relacionados a herpetologia (estudo de répteis e anfíbios) destaca que atualmente são conhecidas 405 espécies de serpentes para o Brasil, sendo que 40% destas são endêmicas do país. A região Norte é a mais rica em espécies de répteis, com 243 espécies de serpentes catalogadas. Segundo dados coletados de 2000 a 2018 pelo Ministério da Saúde, o estado do Pará registrou 83.964 acidentes com serpentes durante esse período. E a fabricação de soro antiofídico não é um investimento barato. 

cobra 1

Erytrolamprus reginae

"Justamente por isso há o investimento na produção de soro para espécies silvestres, nativas do nosso país, e que causam acidentes, como as corais, jararacas, cascavéis e surucucus. Essa é uma das razões para não termos soro para espécies exóticas, porque, teoricamente, elas não deveriam ocorrer aqui no país”, explica. "Soros antiofídicos de espécies exóticas geralmente são mantidos nas instituições que possuem essas espécies para a realização de pesquisas, para o caso de ocorrer algum acidente com algum pesquisador", diz.

Ainda com todas essas implicações, a comercialização ilegal de serpentes continua existindo. “Segundo a legislação ambiental vigente no Brasil, a criação de animais peçonhentos, sejam nativos ou exóticos, vertebrados ou invertebrados, como animais de estimação é proibida, sendo permitida apenas em instituições envolvidas com pesquisas médicas ou com a conservação das espécies. O mercado de compra e venda de animais silvestres para serem usados como animais de estimação é bem forte, infelizmente. E continuará sendo enquanto ainda houver compradores dispostos a financiá-lo”, diz Annelise Batista.

E a prática, além de perigosa, também pode trazer danos irreversíveis aos animais. "Infelizmente alguns animais apresentam danos permanentes que tornam a sua devolução à natureza impossível, fazendo com que ele seja encaminhado a criadouros ou fiéis depositários devidamente credenciados no IBAMA. No caso de animais exóticos, esses sempre serão encaminhados a estes locais, por não poderem ser soltos na natureza”, diz.

Conhecendo mais sobre serpentes

As serpentes acabam sendo mais conhecidas por serem peçonhentas e por poderem causar envenenamento em humanos, do que por seu valioso papel na natureza e para saúde humana.

 “O veneno de uma jararaca brasileira - Bothrops jararaca - é usado no mundo inteiro no tratamento de hipertensão e insuficiência cardíaca. As serpentes tem importante papel no controle biológico de diversas espécies que muitas vezes são indesejáveis para nós, como os ratos, e por serem a base da alimentação de diversas espécies, como aves e outras serpentes”, diz a professora Andréa Bezerra.

cobra 2

Erytrolamprus aesculapi

Além de serem responsáveis pelo controle de populações de vertebrados como sapos, lagartos e roedores, também são fonte de alimento de várias espécies de aves, outras serpentes e mamíferos, como o gambá.  Também são muito importantes na produção de medicamentoe usados para benefício da saúde humana.

“Muitos anticoagulantes, usados no tratamento da trombose e coágulos sanguíneos são extraídos ou tem como base o veneno das serpentes. Um dos remédios mais usados em todo o mundo, é o captopril, usado para controle da pressão arterial e produzido a partir do veneno da jararaca", diz Annelise Batista.

Veneno

Annelise Batista destaca que as serpentes são peçonhentas, e não venenosas, como muitos dizem. Isso se deve ao fato de possuírem glândula de veneno e apresentarem aparato inoculador desse veneno, o que, no caso delas, são os dentes modificados em presas. “Considerando toda a diversidade de espécies de serpentes do mundo, apenas cerca de 10% destas espécies são de importância médica, ou seja, capazes de causar acidentes graves que podem evoluir ao óbito em humanos. A maior parte das espécies peçonhentas não oferece perigo ao homem”, afirma a pesquisadora.

Entre as serpentes peçonhentas, as jararacas, cascavéis, surucucu-pico-de-jaca e corais verdadeiros são capazes de causar acidentes graves em humanos. A picada de uma cobra coral, por exemplo, pode chegar a matar um homem adulto em seis horas.

“Todas as corais verdadeiras tem veneno neurotóxico, ou seja, as toxinas agem diretamente no sistema nervoso. A maioria dos acidentes pode evoluir rapidamente para insuficiência respiratória aguda, principal causa de óbito neste tipo de acidente. Apesar disso, acidentes com essas serpentes não são frequentes, somente cerca de 0,5% dos acidentes ofídicos no Brasil são causados por corais. Isso porque são animais que se enterram (chamados de fossoriais) ou vivem no ambiente aquático, fazendo com que o encontro com com eles seja mais difícil", afirma.

Segundo a pesquisadora, as jararacas costumam ser as responsáveis por cerca de 90% dos acidentes ofídicos no país. Acidentes com esses animais acometem principalmente homens, em zonas rurais, que tem seus membros inferiores, que são as pernas e pés, mais atingidos. 'Apesar da elevada quantidade de acidentes envolvendo essas serpentes, a grande maioria evolui para cura, sem grandes complicações, se as recomendações do ministério da Saúde forem seguidas", adverte.

Cuidados

Ao avistar uma serpente, ambas as pesquisadoras alertam que o melhor ainda é tentar manter a distância e pedir ajuda a profissionais capacitados no manejo.

“A recomendação que eu costumo dar é que, na dúvida, não mexa. Existem órgãos devidamente capacitados para fazer o resgate de animais silvestres como o Corpo de Bombeiros e o Batalhão de Polícia Ambiental, que devem ser acionados caso esses animais sejam encontrados. É importante que o manejo de serpentes seja feito por pessoas treinadas para evitar o estresse do animal e principalmente, evitar que ocorra algum acidente em decorrência do manuseio errado do animal”, diz Annelise D'Angiolella.

Na UFRA campus Belém existem 14 espécies de serpentes, sendo seis delas peçonhentas. A professora Andréa Bezerra proveita para dar algumas sugestões de como se prevenir, caso se depare com uma pelo campus.

"É importante andar com calça comprida e sapato fechado; preferir andar em passarelas de cimento ou sobre o asfalto; evitar sentar perto da vegetação e andar pelos canteiros. E sempre que encontrar uma serpente, evitar passar perto. Se for preciso remanejar o animal, entrar em contato com os integrantes do ambulatório de selvagens, GEAS e Laboratório de Zoologia. E se encontrar um animal morto, avisar o Laboratório de Zoologia para que o animal seja recolhido para identificação e conservação na coleção. Nunca mate uma serpente" diz.

Em caso de acidente

O Ministério da Saúde disponibiliza as seguintes recomendações, caso uma pessoa seja picada por uma serpente:

"Lavar o local da picada apenas com água ou com água e sabão. Manter o paciente deitado. Manter o paciente hidratado. Procurar o serviço médico mais próximo. Se possível, levar o animal para identificação. Não fazer torniquete ou garrote. Não cortar o local da picada. Não perfurar ao redor do local da picada.Não colocar folhas, pó de café ou outros contaminantes. Não beber bebidas alcoólicas, querosene ou outros tóxicos" (Fonte: Ministério da Saúde).

E por que o recomendado é nunca realizar torniquete ou amarrar o local em que foi picado? A professora Annelise D'Angiolella explica. “O veneno das jararacas e surucucus tem propriedades proteolíticas e hemorrágicas, que levam ao sangramento e destruição dos tecidos, e ajudam na digestão de suas presas. Ao amarrarmos o local para evitar que o veneno circule, estamos concentrando-o no membro atingido, fazendo com que essas ações sejam potencializadas, provocando a necrose e muitas vezes, a amputação do membro em casos mais graves”.

Uma vez que a pessoa é picada por uma cobra, ela deve imediatamente procurar um posto de saúde. O Ministério da Saúde disponibiliza, eu seu site, uma lista de hospitais, por região e município, de locais aptos ao atendimento com serpentes.

Texto: Vanessa Monteiro, jornalista, Ascom Ufra

Com informações das professoras Andréa Bezerra e Annelise Batista D'Angiolella

Fotos: Annelise Batista D'Angiolella

Ministério da Saúde: https://saude.gov.br/saude-de-a-z/acidentes-por-animais-peconhentos

 

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