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Ultimas Notícias

Mulheres na Ciência - Conheça o trabalho de 06 pesquisadoras da UFRA

  • Publicado: Segunda, 09 de Março de 2020, 12h50
  • Última atualização em Segunda, 09 de Março de 2020, 13h26

A relação das mulheres com a ciência é antiga. Chamadas de bruxas e perseguidas pela inquisição, a “mulher sábia” teve que enfrentar uma jornada de resistência. Se antes foram perseguidas por serem curandeiras, conhecedoras de experiências com ervas usadas para amenizar ou curar doenças e pragas, hoje essa mulher precisa se impor diariamente e ocupar seu lugar nas universidades, centros de pesquisa e instituições referenciadas.

O relatório “A jornada do pesquisador pela lente de gênero”, da editora Elsevier, destacou um avanço na participação das mulheres no âmbito da ciência. Ao longo desses 20 anos, o número de mulheres entre os autores de pesquisas científicas passou de 29% para 38% . No Brasil, no início do século, 35,3% dos autores eram mulheres.Uma lacuna a ser preenchida, pois foi somente em 19 de abril de 1879, com a Reforma Leôncio de Carvalho, que a mulher passou a ter acesso ao Ensino superior no Brasil, o que ocorria somente com a aprovação do pai ou do marido.

Na Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), a primeira mulher a se formar foi Iêda Coelho Ribeiro, aluna da primeira turma da então Escola de Agronomia da Amazônia (EAA). A formatura ocorreu em 1954, e Ieda era a única mulher, em uma turma de 23 alunos.

Iêda Coelho Ribeiro - primeira mulher a se formar na EAA (hoje UFRA)

Atualmente, nos seis campi da UFRA, as mulheres cientistas se distribuem entre professoras, técnicas e alunas de graduação e pós-graduação. No quadro de professores, elas correspondem a 45% dos docentes da instituição. São pesquisadoras que atuam com ensino, pesquisa e extensão, realizando trabalhos voltados tanto para a área de agrárias, exatas e naturais, quanto sobre acessibilidade, linguística e direitos humanos. Dentro de um universo de 220 pesquisadoras da UFRA, reunimos os relatos de 06 cientistas, que falaram sobre seus projetos, e como é, para uma mulher, fazer ciência na Amazônia.

Em Belém, a pesquisadora Gracialda Ferreira, engenheira florestal e doutora em Botânica Tropical, coordena projetos voltados a recuperação de áreas degradadas e conservação de espécimes. É tutora do Pet-Florestal e vivencia de perto a realidade junto aos povos da floresta.

 

Professora Gracialda Ferreira

“A relação que tenho estabelecido com os profissionais formados tem ampliado a cada dia minha visão sobre a nossa importância para a manutenção e sustentabilidade, das florestas e proporcionado muitas mudanças na minha atuação docente. Apesar de ser ‘ribeirinha’ e ter sobrevivido no mundo a partir dos recursos naturais, ainda consigo me surpreender com as relações sociais estabelecidas entre as pessoas, amparadas pelo amor, o cuidado, o respeito e a cumplicidade, entre eles e a floresta e, entre eles e os que chegam nas suas terras. Isso transforma nossas ações e nos impulsiona a sempre procurar alternativas que possam agregar em oportunidade de geração de renda, como estratégia para mantê-los sempre cuidando desse recurso de valor incalculável para o ser humano. Com isso, ser mulher, engenheira florestal, professora e ribeirinha na Amazônia, tem sido o melhor que a vida poderia ter me proporcionado’.

Atualmente a professora trabalha em um projeto de implantação de uma Unidade de Recuperação de Áreas Degradadas no campus da UFRA Belém, cujo objetivo é conduzir uma unidade de cunho acadêmico-científico, para testar técnicas/métodos de recuperação de áreas, com uso de espécies, respeitando todos os estágios de sucessão ecológica da formação de florestas. “Os desafios são muitos, assim como as dificuldades, em função da geografia e da cultura, principalmente para as mulheres. Por outro lado, e por isso mesmo, atuar na região traz excelentes oportunidades e grandes experiências, diz.

Em Paragominas, a pesquisadora e doutora em Agronomia, Luciana da Silva Borges trabalha com ensino, pesquisa e extensão voltados para incentivar a sustentabilidade dos agrossistemas amazônicos. As pesquisas reúnem projetos que visam a obtenção de dados e o desenvolvimento de  sistemas de produção hortícola sustentáveis, projetos voltados principalmente para a agricultura familiar. A pesquisadora coordena o Hortizon, grupo que existe desde 2015 e treina e forma profissionais especialistas para atuar no ramo de fitotecnica , agroecologia e cooperativismo. Além disso, o grupo realiza várias ações, como a produção de mudas utilizando resíduos de soja e palha de arroz (com a possibilidade do uso desse material como substrato para hortaliças); implantação e manutenção de horta nas escolas públicas (levando conhecimento sobre manejo e educação alimentar); trocas de experiências em hortas urbanas e periurbanas na região de Paragominas;. manejo de quintal agroflorestal de agricultores familares; dentre outros.

professora Luciana da Silva Borges

Segundo a pesquisadora, uma das dificuldades enfrentadas por quem quer produzir ciência na Amazônia são os editais, que “ficam concentrados na regiões sul e sudeste do país”. Ainda que a falta de recursos para a execução de mais ações seja uma realidade, a pesquisadora diz que as pesquisas são uma realização pessoal, pois podem contribuir tanto com a instituição,  quanto para o fomento da horticultura paraense.

“O que sempre falo para as minhas alunas, principalmente, para as que fazem parte do meu grupo de pesquisa, e destaco que maioria são mulheres, é que trabalhar ciência, as vezes é cansativo. Pois, as mulheres exercem múltiplas tarefas. No entanto, quando nos identificamos com uma área, como no meu caso a horticultura, fica mais prazeroso. Profissionalmente, devemos manter sempre a humildade, ética e respeito. E na ciência, não devemos valorizar o número de publicação, mas sim resultados  de pesquisas que serão relevantes para sociedade, e que poderão ser executados pelos agricultores” diz.

Em Tomé-Açu a pesquisadora Marcia Aviz, doutora em Ciências Agrárias, também se divide em projetos de pesquisa e extensão, entre eles o projeto Pitaya, com um incremento de novas oportunidades de empregos diretos e indiretos na região (pois a pitaya é uma cultura não mecanizada). Já no de extensão, busca envolver a comunidade externa em projetos de ciclismo.

professora Marcia Aviz

Para a pesquisadora, uma das principais dificuldades enfrentadas para quem quer fazer ciência ainda é a falta de recurso financeiro. E diz que é preciso ocupar os espaços e enfrentar as dificuldades de forma ousada. Para as futuras cientistas, ela aconselha: “temos que sempre buscar pesquisar o novo, pois assim é um forma de você criar uma metodologia própria e realizar um levantamento de dados desde o início da pesquisa. Ousadia, alegria e persistência sempre, para não desistir na caminhada”.

Em Capitão-Poço, a doutora em Zoologia, Annelise Batista D'Angiolella  desenvolve pesquisas relacionadas a Herpetologia (estudo de répteis e anfíbios), com estudos sobre ecologia, evolução, zoologia aplicada e educação ambiental, assim como o estudo da fauna atropelada da Mesorregião Nordeste do Pará e a influência da paisagem ao redor das rodovias na quantidade e locais de atropelamentos. Coordena o Núcleo de Pesquisa e Extensão “Casa da Ciência”, que objetiva promover a divulgação e popularização do conhecimento científico produzido na Ufra campus Capitão Poço. A equipe do núcleo reúne profissionais e estudantes da UFRA, Museu Paraense Emílio Goeldi, Universidade Federal do Pará e Universidade Federal da Bahia. A iniciativa recebe financiamento dos editais Universal e Ciência na Escola, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e foi aprovada como projeto de lei pela Câmara dos vereadores, recebendo apoio da prefeitura do município, que cedeu o espaço para montagem do Museu sede.

 

professora Annelise Batista D'Angiolella

Segundo a professora, as pesquisas geralmente nascem a partir de problemáticas vivenciadas por ela ou pelos alunos na região. “Conhecendo mais a biologia das espécies, podemos propor estratégias eficientes para sua conservação ou melhor utilização por parte da população, de forma que o conhecimento produzido pelos trabalhos seja repassado para  população, fazendo com que a mesma possa compreender a importância não só de uma espécie, mas também do ecossistema como um todo, e os benefícios de suas funções ecossistêmicas para a humanidade”.

Para Annelise Batista, desenvolver pesquisas em um campus do interior significa lidar com as limitações de infraestrutura e pessoal, o que gera uma sobrecarga que atrapalha o andamento dos trabalhos. E como mulher pesquisadora, é necessário se impor diariamente diante do machismo. “Trabalhar com zoologia muitas vezes requer a realização de trabalhos de campo, em locais distantes, e com uma longa duração, podendo chegar a 30 dias ou mais.  Infelizmente, nestes trabalhos, os homens ainda são maioria, apoiados pela falsa impressão de que são mais fortes, logo, mais aptos ao campo. Em diversas viagens que participei ao longo dos últimos 12 anos na região, fui a única mulher da expedição. E vivi algumas situações constrangedoras”, diz.

Mas, ainda que as dificuldades sejam grandes, é preciso ver cada vez mais mulheres ocupando esses espaços. E para as meninas que querem ser cientistas, a pesquisadora orienta: é um caminho que exige perseverança e coragem. “Não se deixem intimidar e não aceitem menos do que lhes é de direito. Estudem muito, se esforcem e façam a parte de vocês, mas não se calem perante injustiças. Todas vocês são capazes de fazer a diferença no mundo”, aconselha.

Em Parauapebas, a pesquisadora Daniela Castro dos Reis é doutora em psicologia e trabalha com o comportamento humano. Coordena o grupo de pesquisa Gestão, Sociedade e Sustentabilidade (UFRA) e faz parte dos grupos Sociedade, Comportamento, Etnografias e direitos (UFRA) e Laboratório de Ecologia do desenvolvimento (UFPA). Realiza projetos voltados a violência doméstica, agressão sexual de crianças e adolescentes, minorias, ribeirinhas e indígenas. Está trabalhando na criação de um observatório de gênero, que possa monitorar dados de violência e violação de direitos das crianças e adolescentes no Sul/Sudeste do Pará. Segundo a professora, a universidade ajuda a entender o fenômeno, e mapear, para que os órgãos públicos possam executar ações. A pesquisadora teve a tese de doutorado premiada pela Capes em 2016, e organizou o livro “Autores de agressão: subsídios para uma abordagem interdisciplinar”, reunindo trabalhos de pesquisadores de todo o Brasil e que será lançado em breve.

professora Daniela Castro dos Reis

Segundo a pesquisadora, a área de humanas ainda é preterida na destinação de recursos, e quando essa questão se volta para a Amazônia, a situação ainda é mais complicada. “Pesquisa requer recurso, precisamos de laboratórios, observatórios, bolsas. No interior da Amazônia essa situação ainda é mais necessária. Há uma grande desigualdade entre doutores da Amazônia, especialmente entre doutoras, que se concentram na capital. Outra dificuldade é tentar ser ouvida, brigar por uma área que ainda é muito tomada pelos homens. Eu trabalho em uma área cujo tema é marginalizado, porque trabalho com homens cumprindo pena”, diz.

A pesquisadora garante que ser mulher e cientista na Amazônia é um trabalho constante de resistência. “Desafios fazem parte da sua profissão, para a mulher em qualquer área. E você segue. Independente da região que você está. Não é fácil, professor não é só ensino, todos os dias batalhamos e batalhamos. As mulheres cientistas muitas vezes publicam menos porque precisam lidar com atividades domésticas que não são compartilhadas pelo parceiro. Ainda é um movimento contra o patriarcalismo, porque temos que romper muitos preconceitos, mas vamos seguir lutando”, diz.

Em Capanema, a pesquisadora Neuma Teixeira dos Santos atua nas áreas de geotecnologias, sustentabilidade financeira e ambiental, tendo a modelagem matemática como estratégia de abordagem, em escolas de educação básica e unidades de conservação. Coordena o Grupo de Pesquisa e Extensão do Laboratório de Geotecnologias, Educação Financeira e Ambiental (LabGEFA); e o projeto Geotecnologias, Educação Financeira e Ambiental no contexto das marrecas no entorno da RESEX marinha de Tracuateua-PA.  

 

professora Neuma Teixeira dos Santos

Com o trabalho desenvolvido no município, a intenção é promover a democratização da ciência a partir das ações extensionistas. Os graduandos participantes do projeto adaptam para um formato mais didático o conhecimento que é gerado nas atividades de pesquisa, como o uso das geotecnologias, educação financeira e consumo sustentável, educação ambiental e a importância do ambiente equilibrado. Também são realizadas atividades culturais, como mostra fotográfica em praças e feira da cultura. E está em preparação uma série de cartilhas e vídeos com finalidade educativa.

Para ela, realizar pesquisa e extensão em nossa região requer lidar com dificuldades que vão desde o deslocamento das equipes, até a necessidade de bolsas para os alunos. Mas não desiste. Para ela, que já coordenou um projeto cuja objetivo era incentivar a participação das meninas na ciência, é incentivando as meninas desde a escola, que se forma o interesse pela ciência. “Meninas sigam seus sonhos e não permitam que ninguém e nenhum estereótipo negativo digam que vocês não podem! Há uma frase muito conhecida que diz que ‘lugar de mulher é onde ela quiser’, e não conheço uma verdade maior. Ingressar no caminho da ciência é muito gratificante e possível para todas nós. Faça parte do processo de construção do conhecimento”, diz.

Esta matéria faz parte de uma série sobre as mulheres cientistas da UFRA. As pesquisadoras citadas correspondem a uma parcela das mulheres cujos trabalhos realizados diariamente inspiram e contribuem para o desenvolvimento da ciência na Amazônia.

É para quando lhe perguntarem: “Quantas mulheres cientistas você conhece?” E você saiba de várias. Ou seja uma delas.

 

Texto: Vanessa Monteiro (jornalista, Ascom UFRA)

Produção: Brendo Pereira e Adriane Terra

Fotos: Arquivo pessoal das pesquisadoras

 

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