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RIBEIRINHAS VÍTIMAS DE ESCALPELAMENTO PARTICIPAM DE BATE-PAPO NA UFRA

  • Publicado: Quinta, 14 de Março de 2019, 19h35
  • Última atualização em Sexta, 15 de Março de 2019, 13h30
  • Acessos: 697

Foi no ano de 1982, com apenas 8 anos de idade, que Kátia da Silva sofreu um acidente que mudaria sua vida. Morando em área ribeirinha no estado do Amazonas, ela perdeu seus cabelos e couro cabeludo bruscamente no eixo do motor de um barco. Assim como ela, centenas de pessoas, adultas ou crianças, já foram vítimas desse tipo de acidente, que ainda é comum nos rios da Amazônia e atinge, principalmente, mulheres. Para acolher e resgatar a autoestima dessas pessoas, surgiu a Organização Não Governamental dos Ribeirinhos Vítimas de Acidentes de Motor (ORVAM).

Nesta quinta-feira, 14/03, um grupo de mulheres da ONG esteve na Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), Campus Belém, para um bate-papo com a comunidade durante a programação da Semana da Mulher UFRA. O evento ocorreu no Auditório da Biblioteca da Universidade e procurou informar ao público sobre o assunto, bem como apresentar o trabalho da entidade e a luta dessas mulheres.

De acordo com a presidente da ORVAM, a assistente social Darci Lima, estima-se que existam 450 vítimas de escalpelamento somente no Pará, sendo que 150 são cadastradas na ONG. Somente em 2018, foram registrados sete acidentes desse tipo e, este ano, mais dois casos já ocorreram. “O nosso trabalho é no pós-acidente, trabalhando com a autoestima, o empoderamento e o combate ao preconceito. Essas mulheres e crianças passam por tratamento na Santa Casa de Misericórdia e depois vêm buscar atendimento na ORVAM. Nós fazemos o acolhimento delas, as cadastramos e, a partir daí, elas passam a ter direito de participar das nossas atividades e receber uma peruca, tudo isso gratuitamente”, explica.

As perucas são confeccionadas pela própria ONG a partir de doações de cabelos. Durante o bate-papo, a equipe realizou a coleta de cabelos de trabalhadoras da Ufra e de pessoas da comunidade externa à Universidade, com a ajuda de uma cabeleireira voluntária. Darci Lima explica que, para cada peruca, são necessárias de quatro a cinco doações de cabelos a partir de 30 cm cada, pois as características e necessidades das mulheres vítimas de acidentes de motor são diferentes das de pacientes com câncer, por exemplo. “O acidente deixa cicatrizes e, na cultura das ribeirinhas, se valoriza muito o cabelo longo”, explica.

Além da confecção de perucas, a ORVAM também promove oficinas e ações de prevenção. Kátia da Silva contou que conheceu o trabalho da ONG através da internet. Após anos de tratamento em hospitais do Amazonas e de Rondônia, ela decidiu iniciar um novo tratamento na Santa Casa, em Belém, onde agora também participa ativamente das atividades da ORVAM. “Passei dois anos sem sair de casa e nunca pude terminar meus estudos. Sofri muito na vida, mas hoje, graças a Deus, me sinto melhor e estou aqui”. Elizângela Viana, natural de Cametá, também contou como a entidade a ajudou nesse processo: “Eu recuperei minha autoestima e aprendi a lutar pelos meus direitos. Hoje sou feliz, mas foi muita luta e discriminação para chegar até aqui”.

Coordenadora do evento, a Superintendente da Biblioteca da Ufra, Ana Cristina Santos, conta que a parceria entre a Ufra e a ORVAM já existe desde 2016 e se tornou permanente. Todo ano, a Universidade, por meio da Biblioteca, faz campanha junto à comunidade acadêmica, recebe doações de cabelos e os encaminha à organização. “As mulheres sofrem escalpelamento, muitas vezes, por falta de informação. Nesse contexto, o papel da Ufra é o de ser um ente que leva informação à sociedade. Daí a importância de promover um evento como este, além de apoiar uma ONG que promove melhor qualidade de vida para essas vítimas”, afirma. Ela também destaca que a ideia é que a comunidade interna possa replicar essas informações: “Muitos dos nossos trabalhadores e discentes da Ufra são de origem ribeirinha ou conhecem pessoas que são ribeirinhas. E todos eles podem colaborar para que esses acidentes não aconteçam mais”.

Este ano, a Ufra arrecadou e encaminhou 9 doações de cabelos à ORVAM. Durante o bate-papo, outras três pessoas doaram seus cabelos, incluindo duas crianças. Tammi, de apenas 11 anos, pediu à mãe, a dona de casa Tânia Costa, para levá-la ao evento e dar sua contribuição. “Sou de Muaná (Ilha do Marajó) e tenho parentes e amigos que já sofreram escalpelamento. Eu disse à minha filha que o cabelo dela vai crescer, mas que o dessas outras mulheres não, e hoje ela está aqui muito feliz fazendo a doação”, conta a mãe.

“Nosso maior desafio é a autoestima. Nosso objetivo é fazer com que as meninas se sintam bem para retornar à sociedade, que, infelizmente, ainda tem muito preconceito. O foco é fazer com que elas não se vejam como diferentes. E esse apoio da Ufra tem sido importante para conscientizar a todos de que essas mulheres e meninas são normais”, afirma a diretora da ONG. “A gente chega a se sentir ainda mais linda do que antes”, declarou Naelane Barreto, uma das mulheres beneficiadas pelo trabalho da organização.

Doações – A ORVAM recebe doação de cabelos e também realiza coleta, a partir de 30 cm, às segundas, quartas e sextas, das 8h às 17h, na sede da organização, localizada na Av. João Paulo II, lote 134, em Belém. A ONG também recebe doações de alimentos não perecíveis, roupas e materiais de higiene pessoal. Contatos: (91) 3238-1391 / 98907-7161 / orvambelem@hotmail.com.

Texto: Jussara Kishi

Fotos: Brendo Pereira  

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