Projeto busca garantir água e saneamento em território indígena Tembé
“Ou eles têm problema pelo excesso, quando chove e as fossas transbordam ou pela falta de água, quando o rio seca”, explica a professora Vania Neu, da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA). O relato se refere à situação de saneamento vivida por cerca de 30 indígenas da etnia Tembé da aldeia Herekohaw, localizada no município de Santa Luzia, no Pará. Mas esse cenário já começou a mudar. Unindo forças junto aos indígenas, Vania Neu e a pesquisadora Thaisa Pegoraro Comassetto, que também é professora da UFRA, pretendem mudar essa realidade no território Tembé, a partir da implantação de tecnologias sociais.
A aldeia vai receber o projeto “Saneamento ecológico em aldeia indígena Herekohaw”, iniciativa da UFRA e que visa garantir água potável e saneamento de forma ecológica e independente. Até novembro deste ano, serão instalados na aldeia um total de seis sistemas de captação de água da chuva, que funcionam sem necessidade de energia elétrica, contando com a força da gravidade. Também serão implantados cinco tanques de evapotranspiração (Tevap), também conhecidos como fossas ecológicas ou fossas de bananeira.
Professoras e demais integrantes do projeto. Foto: arquivo Vania Neu
“É a primeira vez que vamos instalar sistemas de água de chuva de maior porte e em escala. Cada sistema terá capacidade de armazenamento de cinco mil e quinhentos litros, um total de 33.000 litros de água armazenada. O volume atenderá toda a aldeia com água potável”, diz a pesquisadora.
Os recursos para instalação são oriundos do Ministério do Meio Ambiente (MMA). A instalação dos sistemas devem estar concluídas até a realização da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP 30), evento que ocorrerá na capital paraense. “Nós temos um trabalho longo e consolidado em comunidades ribeirinhas, mas em aldeia indígena será o primeiro. Sabemos que muitas comunidades indígenas sofrem com o mesmo problemas, não tem água potável”, diz.
Vania Neu diz que, atualmente, os indígenas da aldeia precisam captar água de um pequeno rio para garantir água para consumo, durante o período de menos chuvas. Ao longo dos últimos anos, as secas extremas tem intensificado a insegurança hídrica na aldeia, e os indígenas tem receio de ficar sem água para beber.
Local em que os indígenas da aldeia Herekohaw retiram água para consumir. Foto: relatório "Saneamento Indígena: um novo olhar por meio de tecnologias sociais", 2025
“O sistema deve garantir água o ano todo. Durante o período chuvoso, a água pode ser utilizada para todas as demandas domésticas. Já em períodos de pouca chuva, deverão priorizar utilizar a água para beber e para o preparo de alimentos”, diz.
Diferente de outros sistemas de captação já instalados pela universidade, esse foi aperfeiçoado. Segundo a professora, antes era necessário que o morador adicionasse uma dose de hipoclorito, para garantir a potabilidade da água. Agora o sistema terá “cloradores”, o que facilita o tratamento da água. “Em outras experiências nós percebemos que alguns moradores esquecem ou negligenciam o uso do hipoclorito, necessário para eliminar microrganismos patogênicos. Nesse sistema, teremos um reservatório grande para o armazenamento da água clorada, que posteriormente passará por filtragem com carvão ativado antes do consumo. Desse modo, teremos a garantia de que a água não terá gosto, além de remover o excesso de cloro”, explica a professora.
Fossa ecológica
Apesar da aldeia fazer parte do município de Santa Luzia, o município mais próximo utilizado pelos indígenas para deslocamento é Capitão Poço, localizado há 10 km de distância. Lá está instalado outro campus da UFRA, onde a professora Thaisa Pegoraro também atua com projetos de saneamento em comunidades rurais e quilombolas. Embora seja uma tecnologia conhecida e aplicada por pesquisadores ao redor do mundo, os tanques de evapotranspiração (Tevap) ainda são pouco conhecidos na Amazônia, onde, segundo a professora, a instalação resolveria muitos problemas voltados ao saneamento.
A Política Federal de Saneamento Básico, instituída em 2007 e atualizada em 2020, estabelece a meta de que até o final de 2033, 90% da população brasileira tenha acesso à coleta e tratamento do esgoto. Uma meta importante, pois só no estado do Pará cerca de 91,5% da população ainda não possuía acesso à coleta de esgoto em 2022, segundo dados do Painel de Saneamento do Trata Brasil, coletados a partir de informações do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS).
Thaisa Pegoraro diz que algumas residências da aldeia não têm sistema de tratamento de esgoto e outras possuem fossas convencionais instaladas, que devido à má drenagem do solo, alagam no inverno. “A Tevap vai resolver essa situação, e o mais importante é que os sistemas vão ser implantados com a participação coletiva dos indígenas junto à universidade", diz.
A Tevap, também conhecida como bacia de evapotranspiração (BET) ou fossa de bananeira, funciona como uma alternativa de tratamento do esgoto de forma sustentável. Nesse sistema, quem faz o trabalho de filtragem dos dejetos são as diferentes camadas de materiais colocados no interior da bacia ou tanque. E dentro ocorre a fermentação, ou seja, o processo de degradação. Já na superfície, é plantado um jardim com bananeiras, tajás e mamoeiros. São elas que vão jogar a água tratada para a atmosfera, sem poluição do solo e dos lençóis freáticos. “A estrutura do banheiro é igual às demais, o que muda é que a fossa é um canteiro”, explica a professora.
E um canteiro muda tudo. “É uma alternativa que não causa poluição do solo, não polui as águas subterrâneas e nem as superficiais”, diz.
Escola como modelo
A iniciativa não pára por aí. Além da aldeia Herekohaw, as pesquisadoras também vão instalar um sistema de captação de água da chuva na Escola Estadual Indígena de Ensino Fundamental e Médio Itapuyr, que atende crianças e adolescentes de outras quatro aldeias Tembé no município de Santa Luzia.
“Em visita a escola, percebemos que eles tem um problema muito sério de acesso a água. Com a instalação do sistema no local, a ideia é tornar a escola um modelo. Por meio de ações educativas, confecção de uma cartilha bilíngue e a construção coletiva, a tecnologia pode ser reaplicada em outras aldeias, que também sofrem pela falta de água potável”, explica Vania Neu.
O sistema implantado na escola irá atender a 51 alunos e 26 funcionários. Segundo a professora, ao entenderem o princípio de funcionamento da tecnologia, os indígenas podem reaplicar a tecnologia e assim garantir segurança hídrica, além de adquirir habilidades e oportunidades em outras áreas do cotidiano. Ela explica que a incorporação do saber indígena ao longo do processo construtivo será fundamental para garantir o funcionamento, o cuidado e o sentimento de pertencimento das tecnologias. “Na área do saneamento ecológico, pode ajudar a reverter um histórico de marginalização das comunidades indígenas, no campo científico e tecnológico”, diz.
A professora explica que as tecnologias sociais desenvolvidas são simples, de baixo custo e podem ser facilmente mantidas e operadas pela própria comunidade.
“Juntos nós pretendemos construir uma abordagem inclusiva, com respeito cultural e adaptado para a realidade indígena, o que será um grande avanço. Em muitas regiões do Brasil a construção de infraestruturas de saneamento convencionais são ineficientes, impraticáveis e inviáveis, por não respeitarem as especificidades locais e culturais”, diz.
Yanomamis
Em outra frente de trabalho, em breve a professora Vania Neu deve iniciar a instalação de sistemas de captação de água em território Yanomami, no Amazonas (AM), a partir de uma parceria com a Fiocruz.
“Por meio dos trabalhos que temos desenvolvido, temos comprovado que é possível usar água de chuva para consumo humano. É uma tecnologia consolidada para o fornecimento de água potável”, afirma a pesquisadora, ao explicar que que não existe apenas uma tecnologia capaz de fornecer água potável e que é preciso considerar as diversas realidades e graus de isolamento de comunidades na Amazônia.
“Cavar poços é uma tecnologia de alto custo de implantação e manutenção. Temos comunidades isoladas nas quais a implantação de poços artesianos requer uma logística bem difícil e onerosa. Na Amazônia há inúmeras comunidades, na qual o abastecimento de água potável poderia ser garantido via água de chuva”, finaliza.
Cartilha
Tanto com os Tembé, quanto com os Yanomami, a equipe vai desenvolver duas cartilhas bilingues, com informações sobre a instalação dos projetos
Cartilha já desenvolvida pela equipe de Vania Neu. A meta é desenvolver mais duas cartilhas, bilingues, para os Tembé e para os Yanomami. Imagem: arquivo Vania Neu
Texto: Vanessa Monteiro, jornalista, Ascom Ufra.
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